
Se houvesse algum pingo de seriedade na defesa dos nossos valores artísticos e culturais, o "Adeus à Vida", de Fátima Ferreira & The Brothers, já teria sido classificado como um bem de alto valor patrimonial. A essência de um certo Portugal (provavelmente maioritário) está superiormente sintetizada nestes quatro minutos de canção. E que outra coisa senão uma obra prima poderia em apenas quatro minutos revelar todas as evidências de um país.
Está lá tudo. Não é preciso dizer mais nada: o fétiche exibicionista pela desgraça e tragédia, a religiosidade parola e pouco convicta, a naturalidade do abuso sexual sobre crianças, o puritanismo hipócrita, paternalismo irresponsável, a leviandade e ligeireza, a profunda pobreza de espírito, o gosto provinciano pelo toque estrangeiro, o sentimentalismo saloio e falso e a vitimização parola. Por ser mais eficaz no poder de síntese, o texto da canção vai muito para além de "O Labirinto da Saudade" ou de "Portugal, Hoje: O Medo de Existir". Ao pé de "Adeus à Vida", as obras de Eduardo Lourenço e José Gil parecem paráfrases de redundâncias.
Depois há ainda a música. O orgãozinho não é o espírito de uma época. É uma coisa desenrascada, barata, comprada numa feira qualquer, jeitosinha e que até dá para fazer parecer que são muito instrumentos. E o ritmo vai descendo e subindo como um lamento orgulhoso (tão Salazar), variando entre a lamechice pacóvia, a submissão ao designio superior querendo, no entanto, fazer crer que se tem a dignidade de morrer de pé como as árvores.
E tudo isto é triste? Não. É só uma burla pateta. E não, não me lembrei disto por causa da irrelevância da Maria José Nogueira Pinto, do CDS-PP ou mesmo do Paulo Portas e dos seus arruaceiros (sejam eles pretos ou gays); nem por causa do Público, que quer agora ser um jornal sério, dedicar quase quatro páginas a desfazer um hipotético boato sobre o irrelevante percurso académico do primeiro-ministro; também não me lembrei do Marques Mendes nem do palhacito da Madeira; a ministra da cultura também não me veio à memória, nem os curadores-críticos de arte, do Público e do Expresso, e os seus amigos-artistas que são sempre do melhor que há; não estava a pensar em Fátima Felgueiras, nas irmãs Jardim, na Paula Bobone e outros indigentes do género; não me passou pela cabeça o procurador João Guerra, que investigou o processo Casa Pia, e que se consegue contradizer sempre que fala do "envelope 9"; nem Souto Mouro, essa coisa indefinível que esteve à frente da justiça durante não sei quanto tempo; e santana lopes, para desagrado do próprio, também não me lembrei dele... Que faremos de tanto entulho? Podemos sempre dizer adeus à vida!












