12.4.07

O verme

Toda a atenção mediática e os contornos desta miserável história do diploma do Sócrates criaram um ambiente absolutamente excepcional para a incubação do verme mais resistente da nossa classe política.

Quando toda esta poeira assentar, haveremos de descobrir que Paulo Portas já estará novamente à frente do CDS-PP, sem ninguém ter nem a vaga noção de como é que isso aconteceu. Portas aparecerá recuperado da sua pose de Estado e de seriedade, uma pose que nunca compreendi como é que convence. Sempre que o vejo, com aquela dentadura irreal, fico sempre à espera do momento em que ele desate a cantar o I will survive.

Portas é, de facto, o grande beneficiário de tudo isto e, mesmo não sendo adepto das teorias da conspiração, não me surpreenderia que a sua manicurizada mãozinha estivesse por detrás disto.

1. Apesar do caso ter pelo menos dois anos, só agora ganhou esta dimensão precisamente no momento em que o Governo se preparava para entrar em gestão pré-eleitoral.
2. Teimando o PSD em não existir, esta é sem qualquer dúvida a melhor altura para Portas avançar. Mas como as coisas não correram como o desejado, com o CDS envolvido numa guerra interna muito pouco edificante, Portas sairia com a sua imagem bastante danificada mais que não fosse por ele próprio estar envolvido nela.
3. Portas diz querer adaptar o PP à realidade actual. Por outras palavras, quer conquistar o mesmo espaço que apoia o Governo. Porque, na verdade, Portas considera-o como seu.
4. Não podendo discordar em absoluto da política do Governo, excepto em coisas menores como as liberdades individuais, e tendo conquistado Sócrates uma imagem que ele próprio ambicionaria, nada melhor que descredibilizar o primeiro-ministro por uma questão secundária, ao melhor estilo da manta de Deus Pinheiro.
5. Descobrindo-se que Sócrates tem os pés de barro e que afinal é tão português como todos outros (ainda por cima é da Covilhã e não de Cascais), Portas tem o caminho livre para conquistar os eleitores de direita que até agora continuavam a dar uma maioria absoluta ao PS se as eleições fossem hoje.
6. E, como sempre, ele aparece depois pronto para liderar a nação, com as mãos limpas, com aquela pose de quem está acima de todas essas mesquinhezas.

Toda esta história faz muito lembrar o envolvimento de Ferro Rodrigues e Paulo Pedroso no processo Casa Pia cujo resultado é o que se sabe, com o PS a perder qualquer hipótese de chegar ao poder e o afastamento de Paulo Pedroso, o mais sério candidato a secretário-geral do partido, entretanto exilado na Roménia e com um dos maiores pedidos de indemnização ao Estado. E será uma grande injustiça se não o ganhar.

Tudo isto é absolutamente patético: a entrevista de Sócrates, o tratamento jornalístico ao caso, a oposição, as queixinhas do Expresso das pressões do Governo (como se isso fosse uma novidade deste Governo), as intermináveis páginas do Público sobre o assunto, as respostas do gabinete do primeiro-ministro... Mas esperem até o verme aparecer da lama. Por envolvimento ou falta de comparência, ninguém sai ileso. Excepto o verme, que sai reforçado.

6 comentários:

carlopod disse...

ai, já me puseste mal disposto...

Anónimo disse...

Tambem não percebo esta crise do Socrates.
Qual a diferença entre ser licenciado da Independente e não ter curso?

allaboutheforest disse...

ainda não li o texto mas o título é o máximo.

allaboutheforest disse...

basta que um destes dias filmem o portas numa das suas aventuras como Caterine Deneuve e o verme passa a bestial.

Anónimo disse...

deixai-me ver que medidas posso sugerir para ajudar isto tudo:

1) investigação compulsiva a todas as licenciaturas, mestrados e afins dos detentores de cargos públicos (se houver dinheiro, estende-se isto a todo o povo)
2) um cartaz do Gato Fedorento sobre o assunto em S. Bento
3) uma petição pelo branqueamento dos dentes de Sócrates
4) um doutoramento honoris causa em algo de alguma universidade estrangeira para Sócrates; sei lá, um doutoramento em literatura pela universidade de goa, ou assim.
5) a contratação de uma equipa de investigadores estrangeiros dos bons para teorizar como seria o caso da Licenciatura se o personagem fosse o Santana Lopes e não o Sócrates.
6) a eleição de razorblade para a assembleia da república (isto pode conseguir-se se avançar o plano do Mogafe - movimento gato fedorento - e conseguirmos convencer o gilette a candidatar-se)

any the one disse...

muito boa análise política, sim senhor, e não podias ter mais razão. esta classe (o nome é pomposo demais), este grupos de idiotas que são os políticos dão o cuzinho e oito tostões (literalmente, em alguns casos) para andar por aqui a discorrer sobre assuntos assessórios, deixando os outros mais chatos e menos mediáticos para quem realmente quer fazer alguma coisa. é triste como a política portuguesa vive de casos giros e de pseudo-escândalos.