26.11.06

Je t'aime... moi non plus



Este belo par (Jane Birkin e Joe Dallessandro) é o mesmo da pergunta do Quizz a que ninguém respondeu. A foto é do primeiro filme de Serge Gainsbourg, Je t'aime... moi non plus (1976). O filme ficou muito aquém da notoriedade que teve a música que lhe dá o título, mas é uma peça de rara beleza. Je t'aime... moi non plus (1969) é uma daquelas músicas que consta de qualquer colectânea romântica e para muita gente continua a estar entre as melhores canções de amor de todos os tempos. Na altura, a música provocou polémica e chegou a ser banida em estações de rádio e mesmo nalguns países com a classificação pornográfica por causa dos gemidos de Jane Birkin (e não só). Não se será difícil imaginar quantos namoros, casamentos ou meros encontros sexuais se iniciaram ao som desta música, por esse mundo fora. Esta é a parte terna.

Agora a parte cruel. É claro que nunca ninguém deve reparado no próprio título da música: Eu amo-te... eu também não (em inglês, as traduções variam entre I love you, nor do I e I love you, I love you not). Talvez desagradado com a reputação da música, Serge Gainsbourg resolveu fazer um filme (o seu primeiro) com o mesmo título. Je t'aime... moi non plus marca a estrutura e a essência do argumento. A história é muito simples: Krassky, um homem do lixo (Joe Dallessandro, uns dos rapazes Wahrol), conhece uma empregada de um bar de estrada que, devido ao seu ar arrapazado, se chama Johnny (Jane Birkin, mulher de Gainsbourg). Os dois sentem-se mutuamente atraídos e acabam na cama.



E é na cama que se dá o grande conflito do filme. Na essência o filme é isso. Krassky é gay (Padovan (Hugues Quester) é o namorado) e não consegue excitar-se com a ideia da penetração vaginal. Johnny, com um sentido muito prático, tenta dar a volta à questão incitando-o à penetração anal ("Je suis un garçon", diz-lhe). O apelo funciona na perfeição mas há um problema, Johnny grita desalmadamente perante todas as tentativas. Eles correm todos os sítios disponíveis, mas os gritos dela colocam toda as pessoas nas redondezas em alerta.



Finalmente, tentam-no em cima do camião do lixo de Krassky, no meio de um descampado. A cena inicia-se com os mesmo gritos mas ao fim de algum tempo, como não são interrompidos por ninguém, lá acabam por ser bem sucedidos. As vozes de ambos alinham com a música e Jane Birkin diz continuamente "Je t'aime" seguido pelo silencio de Joe Dallessandro com "Moi non plus". A seguir ele dir-lhe-á: "O importante não é como fazemos amor. O importante é o facto de seres minha e experimentarmos as mesmas sensações. É isto o amor. E, acredita-me, é raro".

Tal como na música, eles não foram felizes para sempre e não tiveram muitos filhinhos. Padovan, que era muito ciumento, tenta matar Johnny mas é apanhado por Krassky. Este dá-lhe um raspanete e vão os dois à sua vida. E a Johnny fica sozinha. Com isto tudo, ainda me continuo a surpreender que os corações mais românticos entrem em delírio com o Je t'aime... moi non plus. Confesso que me dá um particular gozo contar esta história sempre que alguém diz, com os olhos revirados: "ai, esta música...". Para quem gosta do universo Gainsbourg, o filme é de culto. Uma última curiosidade: Gérard Depardieu ainda jovem faz uma pequena aparição no filme, vestido de branco sobre um cavalo branco, numa espécie de jogo de sedução com Padovan.

Quanto à música, sabendo da história, muita gente poderá ir do amor ao ódio e outros tantos irão em sentido inverso. Há também a possibilidade de recorrer às versões e são muitas: Sven Väth feat. Miss Kittin, Brian Molko com Asia Argente (ele canta a parte da Jane Birkin), Mick Harvey, Anita Lane com Nick Cave, Barry Adamson, Malcolm McLaren... Para quem quer passar a odiar a música é muito eficaz a versão dos Pet Shop Boys ou a da Donna Summer.

Para quem gosta do original, basta ver o video que alguém (Boxcar Bertha) se deu ao trabalho de fazer com fotografias de Jane Birkin e Gainsbourg. Podia ser pior.




(grande remiguel que se lembrou de um dos meus filmes preferidos para o quizz :)

2 comentários:

carlopod disse...

tiro mais uma vez o meu chapéu ao razor blade, que de cada vez que vem ao blog o eleva à estratosfera.

Anónimo disse...

Adorei a história escabrosa e agora adoro ainda mais a música.
Genial, a música e o filme.